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Quem são os vices de Bolsonaro e Haddad (e por que é importante falar sobre eles)

Desde a proclamação da República, em 1889, o Brasil já viu oito vice-presidentes assumirem a Presidência em definitivo

Anderson Gonçalves, especial para a Gazeta do Povo
Quem são os vices de Bolsonaro e Haddad (e por que é importante falar sobre eles)
Fotos: Maicon J. Gomes/Gazeta do Povo e Evaristo Sa/AFP
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Candidatos a vice sempre foram tratados com um certo desdém pelo eleitorado. Afinal de contas, trata-se de alguém que só assume o posto em situações esporádicas, ou em definitivo caso haja algum problema com o titular. Morte, renúncia ou destituição, por exemplo. Mas, por mais que isso não seja o que as pessoas esperam quando votam em um candidato, a história do Brasil mostra que o vice não deve ser desprezado quando se faz uma escolha nas urnas.

Desde a proclamação da República, em 1889, o Brasil já viu oito vice-presidentes assumirem a Presidência em definitivo. O primeiro foi exatamente o primeiro a ser eleito, Floriano Peixoto, em 1891. Três deles apenas nos últimos 30 anos. O atual presidente Michel Temer (MDB), não custa
lembrar, foi vice-presidente por dois mandatos e assumiu o cargo em 2016, após a então presidente Dilma Rousseff (PT) sofrer processo de impeachment.

O caso de Temer é dos mais curiosos. Nas duas eleições que disputou, Dilma teve o emedebista como companheiro de chapa. Quando o processo de impeachment foi deflagrado, o atual presidente ganhou o apoio de opositores ao governo, inclusive o principal deles, o PSDB. Já o PT, aliado durante seis anos, se disse vítima de golpe e passou a fazer oposição. No centro da crise política, seu governo passou a ser criticado por quase todos os partidos políticos e vai terminar reprovado pela grande maioria da população.

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Outros tiveram mais sorte ao herdar o cargo. Itamar Franco era o vice de Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito pelo voto direto após a ditadura militar, que acabou sofrendo impeachment com apenas três anos de mandato. Com o país mergulhado em uma grave crise política e econômica,
Itamar assumiu o posto sob desconfiança, visto por muitos como passivo demais para o que o momento exigia. No fim das contas, em seu governo foi implementado o Plano Real, que estabilizou a economia e abriu as portas para o desenvolvimento nos anos seguintes.

Já houve também uma época em que os eleitores podiam escolher o vice-presidente, independentemente do titular. Foi assim que João Goulart foi eleito em 1955, inclusive obtendo mais votos que o presidente eleito, Juscelino Kubitschek. Eleito novamente em 1960, tomou posse no ano seguinte, após a renúncia de Jânio Quadros. No entanto, seu mandato durou menos de três anos, interrompido pelo golpe que deu início aos 20 anos de ditadura militar no Brasil.

Perfis opostos

Em 2018, os dois candidatos à presidência que disputam o segundo turno neste domingo (28), Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), apresentam como vice em suas chapas pessoas com trajetórias e posições políticas completamente distintas. Talvez a única coisa em comum entre os dois seja a origem: ambos são gaúchos nascidos em Porto Alegre.

Do lado de Bolsonaro está Hamilton Mourão (PRTB), general da reserva do Exército que participa pela primeira vez de uma eleição. Colecionando declarações polêmicas antes mesmo de ingressar na política, chegou a ser repreendido pelo presidenciável por algumas de suas afirmações.

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Com Fernando Haddad está Manuela D’Ávila (PCdoB), jornalista eleita vereadora com apenas 23 anos, exercendo na sequência mandatos de deputada federal e estadual. Suas posturas também geram controvérsia, como a defesa do aborto e da descriminalização das drogas.

A seguir, leia um perfil dos dois candidatos: quem são, como foi a trajetória política, o que defendem e qual tem sido a participação na campanha.

Um general sem papas na língua

A escolha do candidato a vice-presidente de Jair Bolsonaro foi decidida, como se costuma dizer, aos 45 do segundo tempo. Vários nomes foram cotados: o senador capixaba Magno Malta (PR), a advogada Janaina Paschoal (uma das autoras do pedido de impeachment de Dilma Rousseff), o general da reserva
Augusto Heleno e o príncipe Luiz Philippe de Orleans e Bragança. Nenhum deles se dispôs a ocupar o posto, que, faltando poucos dias para a definição, acabou sendo entregue a um nome que nem constava da lista inicial: Antônio Hamilton Martins Mourão, mais conhecido como o general Mourão.

A escolha pode até ter sido surpresa pelas circunstâncias, mas não pelas características do escolhido. A começar pela formação militar. Tanto ele como Bolsonaro se formaram na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no Rio de Janeiro. Conheceram-se em 1986, quando eram tenentes no 8.° Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista, e tiveram uma curta convivência na Vila Militar. Enquanto o capitão deixou a carreira para se dedicar à política, o general passou 46 dos seus 65 anos de vida servindo o Exército. Entre outros feitos, integrou uma missão militar em Angola, na África, foi adido militar na Venezuela e o responsável pelo Comando Militar do Sul, que abrange todas as unidades da Região Sul do país.

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Outra característica comum entre presidenciável e vice é a língua afiada. No caso de Mourão, as atitudes e declarações controversas acabaram tendo um custo. Em 2015, o general autorizou uma homenagem póstuma a Carlos Brilhante Ustra, denunciado como torturador durante o regime militar, a quem Bolsonaro também já saudou publicamente. Por esse ato, acabou sendo afastado do Comando Militar do Sul e transferido para a Secretaria de Economia e Finanças do Exército.

A saída desse cargo também ocorreu após declarações que repercutiram mal. Em setembro do ano passado, durante palestra em uma loja maçônica, Mourão afirmou: “Ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós [Exército] teremos que impor isso”. A sugestão de que as Forças Armadas deveriam intervir ocorreu no momento em que o presidente Michel Temer era denunciado por obstrução da Justiça e participação em organização criminosa. Por conta disso, em dezembro o general foi novamente transferido, dessa vez para o posto de adido da Secretaria-Geral do Exército.

Em fevereiro deste ano, Mourão encerrou a carreira militar e foi para a reserva. Três meses depois, assinou a primeira ficha de filiação a um partido político de sua vida, no PRTB. A legenda nanica havia participado das duas últimas eleições presidenciais lançando Levy Fidélix como candidato. À época, Mourão disse que não planejava concorrer a nenhum cargo eletivo, mas que estava no “banco de reservas”, caso Bolsonaro o convocasse.

E a convocação veio. Só que a relação entre capitão e general durante a campanha não foi tão harmoniosa quanto nos tempos da caserna. Depois que Bolsonaro foi esfaqueado, no início de setembro, passando um período internado, Mourão até ensaiou tomar à frente da campanha. Porém, mais uma
vez as palavras foram um problema. Primeiro quando disse que “famílias com mãe e avó são fábricas de desajustados”. A declaração repercutiu mal, mas ainda foi relevada pelo presidenciável.

Dias depois, uma nova saia justa. Em um encontro com empresários, o general criticou o 13.º salário e o pagamento de férias, classificando-os como “jabuticabas brasileiras”. Dessa vez, o presidenciável respondeu rapidamente, afirmando que não havia nenhuma possibilidade de acabar com os benefícios trabalhistas. Na sequência, repreendeu seu vice, conforme admitiu em uma entrevista à TV Bandeirantes. “Falei sim, falei para ele ficar quieto. Afinal de contas, está atrapalhando realmente”. Após o 1.º turno, em entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo, Bolsonaro justificou o vice: “O que falta a Mourão é um pouco de tato, vivência com a política; ele foi infeliz, deu canelada”.

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O general, porém, continuou colecionando polêmicas. Na véspera da eleição, disse que o neto era bonito por “branqueamento da raça”. Dias depois, comentou a declaração: “fui idiota”. Outra controvérsia foi a manifestação de apoio à candidatura de João Doria (PSDB) ao governo de São Paulo no segundo turno. O anúncio causou revolta de lideranças do PSL, visto que o partido optou por se manter neutro na disputa pelo governo paulista.

Se no tocante à política Mourão não tem papas na língua, no que se refere à vida pessoal o general faz questão de ser discreto. Em dezembro de 2016 ele perdeu a esposa, com quem teve dois filhos. Segundo o jornal O Globo, ele já programou para depois das eleições o casamento com uma tenente-coronel do
Exército, de 42 anos. “Isso é particular. Eu sou viúvo. A pessoa com quem eu convivo é divorciada. Nada mais natural que a gente se case”, desconversou.

Radicalismo posto de lado

Até o início do ano, os planos tanto do PT quanto da deputada estadual gaúcha Manuela D’Ávila (PCdoB) eram bem diferentes da realidade atual. Os petistas vinham há muito tempo articulando uma nova candidatura do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, mas o projeto foi barrado no dia 7
de abril, quando Lula foi preso por corrupção e lavagem de dinheiro. Como estratégia eleitoral, o partido ainda registrou a candidatura do ex-presidente, tendo Fernando Haddad como vice, e levou-a até onde foi possível. Esse limite expirou em 11 de setembro, quando o PT enfim registrou Haddad como postulante ao cargo.

Manuela, por sua vez, seria adversária de Lula na corrida presidencial. O PCdoB lançou oficialmente sua pré-candidatura e, por meses, a deputada participou de eventos e concedeu entrevistas como concorrente ao Palácio do Planalto. Em 6 de agosto, porém, já com o prenúncio de que Lula seria
barrado, anunciou que estava fora da disputa em nome da “união da esquerda”. “Seria quase um luxo manter minha candidatura e não reunir, aglutinarmos mais forças para vencermos as eleições”, justificou na ocasião.

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Com a posterior confirmação de Haddad como candidato, sacramentou-se o acordo firmado no início de agosto e a deputada foi oficializada como vice na chapa petista. E, assim, a gaúcha de 37 anos de idade, formada em jornalismo, chegou à sua sétima campanha política. Pode-se dizer que metade da sua vida foi dedicada à política, já que ingressou no movimento estudantil aos 18 anos, passando pela União Nacional dos Estudantes (UNE) antes de ser eleita a vereadora mais jovem de Porto Alegre, em 2004, com 23 anos.

Dois anos depois, Manuela deixou Porto Alegre rumo a Brasília. Foi eleita deputada federal e reeleita em 2010. Em 2014, optou por concorrer a uma cadeira na Assembleia Legislativa, alegando que preferia ficar mais próxima da cidade e do estado natais. Nas três eleições legislativas que disputou, foi a mais votada do Rio Grande do Sul, o que contrasta com o desempenho nas suas duas disputas majoritárias. Ela perdeu nas duas vezes que concorreu à prefeitura de Porto Alegre, ficando em terceiro lugar em 2008 e sendo derrotada já no primeiro turno em 2012.

Na Câmara Federal, Manuela D’Ávila chegou a presidir a Comissão de Direitos Humanos e Mino­­rias, da qual também fazia parte o hoje presidenciável Jair Bolsonaro, e foi líder do PCdoB na Casa. Ela ganhou destaque ao defender bandeiras polêmicas da esquerda, como a regulamentação do aborto, a descriminalização das drogas e a igualdade na orientação sexual, além de se proclamar militante pelo feminismo.

“Não existe nenhuma mulher que seja favorável ao aborto. Mas é um tema importante a ser debatido com as mulheres, por ser uma questão de saúde pública”, disse Manuela em entrevista ao portal UOL quando ainda era pré-candidata a presidente. Sobre as drogas, a deputada propunha em seus discursos a regulação do comércio. “O que queremos é o fim da liberação das drogas. Hoje, cada um consome o que quer, em qualquer quantidade e alimenta uma indústria da morte. Estão liberadas de qualquer controle efiscalização”, afirmou em uma postagem no Facebook em 2015.

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Esses assuntos, porém, foram deixados de lado a partir do momento que a comunista oficializou sua entrada na chapa petista. Os dois temas não constam no programa de governo de Fernando Haddad e, a exemplo do que o partido fez nas campanhas presidenciais anteriores, foram pouco explorados para evitar rejeição de uma parcela do eleitorado. Com isso, Manuela focou seu discurso em outras questões, como a igualdade de salários entre homens e mulheres.

Ainda que tenha deixado os posicionamentos controversos de lado na campanha, isso não impediu que fosse alvo de várias fake news. Há algumas semanas, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou a retirada de uma série de conteúdos contendo informações falsas sobre a candidata. Em seu Facebook,
mantido em grande parte por sua assessoria durante a campanha, ela posta conteúdos diários, mas quase nada relacionado a propostas. A maioria das postagens é de atividades de campanha ou ataques aos adversários. Na campanha nas ruas, tem acompanhado Haddad em quase todos os eventos, mas com
uma postura discreta.

Manuela é casada há seis anos com o músico Duca Leindecker, da banda Cidadão Quem. Eles têm uma filha de três anos, que é vista frequentemente com Manuela nos eventos públicos. Há dois anos, recebeu críticas após postar uma foto amamentando no plenário da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.
Sobre isso, comentou em uma entrevista à revista Marie Claire: “Sou a única mãe de Laura e exerço a maternidade de forma ativa e consciente. Quando ela crescer, vai saber que dedico minha vida ao combate ao ódio, à misoginia, ao preconceito. Não vou abrir mão de ser mãe dela. Não posso ser penalizada por um sistema de ódio.”

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