Menos é mais também no mundo digital?

Hábito de consumo da informação mudou radicalmente nos últimos 20 anos e hoje apresenta desafios homéricos para jornalistas e usuários digitais

, especial para a Gazeta do Povo.

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A internet mudou nossa cultura para sempre. A afirmação apocalíptica não guarda exageros. Quer prova? Até poucos anos atrás, quando queríamos nos informar sobre nossa cidade e o mundo, íamos até a banca para pegar nossos jornais e revistas de confiança ou esperar ela ser entregue na nossa porta. Essa relação sofreu um abalo. Atravessamos um vale reféns dos feeds de redes sociais e das correntes, invariavelmente inundadas por fake news e notícias caça-cliques. Agora, veículos e leitores caminham para retomar a essência da relação. Do lado de cá, jornalismo de qualidade e atenção a um público que não aceita mais um papel passivo; do lado de lá, a confiança e a fidelidade a quem aceitar dividir (ou ceder) o protagonismo. A diferença é que, agora,
a banca está no celular e nos aplicativos.

Trata-se de uma revolução, por enquanto, silenciosa. O dogma “menos é mais”, imortalizado pelo arquiteto modernista alemão Mies van der Rohe, começa a avançar pela internet. Alguns jornalistas já perceberam essa realidade, e anunciaram que é hora de diminuir o ritmo de notícias e investir mais no jornalismo de qualidade, como afirma o jornalista canadense e editor chefe
da revista The Walrus, John MacFarlane, em editorial intitulado “É tempo de um movimento de slow news?”.

Seu ponto principal se refere aos porquês das coisas, que raramente são fornecidos pelas mídias. Inspirado pelo movimento italiano slow food, MacFarlane defende que uma dieta de hard news é tão saudável quanto uma dieta de fast food. “Da mesma maneira que muito açúcar e gordura farão você ficar doente, notícias do tipo ‘apenas adicione água e sirva’ o farão ficar mal informado
e, portanto, um cidadão impotente”, ressalta o editorial. Como dizia uma famosa expressão de quando a ciência da computação ainda patinava, ‘entra lixo, sai lixo’ (garbage in, garbage
out, em inglês); ou seja, a precisão e a qualidade da informação de saída dependem da qualidade da informação de entrada.

“Da mesma maneira que muito açúcar e gordura farão você ficar doente, notícias do tipo ‘apenas adicione água e sirva’ o farão ficar mal informado
e, portanto, um cidadão impotente”

Alguns diários e revistas já começaram a diminuir o ritmo de suas publicações. E agora diversos usuários da rede já começam a compreender e a simpatizar com o movimento. Alguns críticos insistem que o jornalismo digital é, por natureza, mais superficial, por entender que os leitores só gostam de coisas mais fáceis, simples e rápidas. Mas estão longe da verdade. Outros críticos, como a jornalista Amy O’Leary, que trabalhou a integração do formato digital e impresso do The New York Times e que por anos foi a editora do site do jornal, sustentam que o jornalismo multimídia apenas muda a forma de contar as histórias, mas não é antagônico a conteúdos aprofundados. Ela ainda defende com unhas e dentes textos mais longos na internet, como também fazem os britânicos do The Guardian e da The Economist.

Alguns jornais até adaptam parcialmente suas coberturas a assuntos que mais interessam aos usuários, como fizeram os americanos The New York Times e Wall Street Journal. Todas as mudanças são baseadas em informações sobre o tráfego na internet para identificar o que mais interessa aos leitores. O que não significa que a inclusão desses novos temas fez os jornais
abandonarem as coberturas que julgam fundamentais. Pelo contrário. Todos continuam a insistir nas reportagens “obrigatórias”, que os leitores “precisam” ler, independentemente de audiência
ou gosto pessoal da freguesia leitora.

Outro desafio do mundo digital é a instalação de um modelo comunicativo que dialogue mais com a audiência. É o tal retorno de hábito que está a caminho. As pessoas querem mais diálogo,
mais vínculo com os veículos de sua confiança. Um dos caminhos que os jornais têm adotado é o incentivo para que as pessoas contribuam com fotos, vídeos, relatos, já que nem sempre haverá
um jornalista por perto para fazer imagens ou registros profissionais de todos os acontecimentos inesperados do mundo. E como lembra o brasileiro Rosental Calmon Alves, diretor do Knight Center for Journalism in the Americas, da Universidade do Texas, em artigo publicado na internet, “hoje a audiência não é mais passiva, não se trata mais de um monólogo, é preciso haver uma constante troca de informações entre os leitores e o jornal”.

“É preciso ouvir o leitor. Com respeito e interesse real. Como sentencia Javier Restrepo, diretor do Escritório de Ética da Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-Americano (FNPI, na sigla em espanhol): o jornalista é um servo público”.

É preciso ouvir o leitor. Com respeito e interesse real. Como sentencia Javier Restrepo, diretor do Escritório de Ética da Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-Americano (FNPI, na sigla em espanhol): o jornalista é um servo público.

E como a informação está mais disponível do que nunca, faz-se necessário surpreender e seduzir o leitor com matérias que rompam com a monotonia e o bombardeio de conhecimento de todos os
lados. O que demanda cada vez mais apurações exclusivas. Menos é mais, viu só?

E o que tem contribuído para corroborar cada vez mais essa volta ao conteúdo de qualidade e credibilidade é o fenômeno das fake news, as mentiras que viram notícias. Tal prática, que se espalhou como um vírus por todas as sociedades do globo, teve efeito adrenalina sobre a percepção das pessoas quanto ao jornalismo. Quem não tinha ideia entendeu que o jornalismo sério
é um pilar da boa democracia. Que produzir e depurar informação de qualidade exige tempo e cuidado. E, de quebra, ganhou mais um incentivo para amadurecer sua cultura democrática.
Pois a reportagem com credibilidade, devidamente apurada, merece ser respeitada, mesmo se afrontar nossas ideias de mundo.