Guerra do Paraguai

O Paraná vai à luta no maior conflito da América do Sul

Reportagem: Diego Antonelli.
Fotos: Marcelo Andrade.
Parte 3:

Imagem - No Paraguai, os mortos na guerra são lembrados e homenageados no Panteão dos Heróis
No Paraguai, os mortos na guerra são lembrados e homenageados no Panteão dos Heróis

As ruas de Curitiba estavam tomadas. Os moradores em estado de êxtase. Os primeiros sobreviventes paranaenses da mais terrível guerra que a América do Sul presenciou retornavam para suas casas. No dia 27 de abril de 1870 regressaram 51 Voluntários da Pátria que enfrentaram os horrores do campo de batalha da Guerra do Paraguai – chamada nos países de língua espanhola de “Guerra da Tríplice Aliança”.

Recebidos como heróis, foram homenageados com festas que se prolongaram até o dia 29 daquele mês. Fogos de artifício, música e recitais de poesia animavam o povo e os soldados do Paraná. Um cenário completamente oposto ao que haviam presenciado pouco tempo antes.

Durante a guerra, que durou de 1864 a 1870, esses soldados – muitos deles despreparados para enfrentar as barbáries do conflito – se depararam com milhares de mortos, prisões, tiros, casas incendiadas e localidades em ruínas. A maioria dos enviados da província era formada por jovens que moravam nas comarcas de Curitiba, Castro e Guarapuava.

Com o decreto 3.371, de 7 de janeiro de 1865, determinando a formação dos Voluntários da Pátria, civis sem prática militar foram recrutados para encorpar as tropas do Império Brasileiro.

Front

Mapa - Estimativas do número de voluntários e guardas nacionais enviados pelas províncias na Guerra do Paraguai

Segundo estimativas do historiador David Carneiro, o Paraná cedeu cerca de 2.020 pessoas, sendo quase 500 como “voluntários”. Ao todo, a Região Sul forneceu 9,7 mil homens e mais 1,5 mil escravos.

No entanto, o historiador e pesquisador Edilson Pereira Brito, autor de uma dissertação de mestrado sobre o tema pela Universidade Federal de Santa Catarina, acredita que o número é incerto. Utilizando os dados do Relatório do Ministério da Guerra de 1872, que foi uma espécie de balanço da Guerra do Paraguai, o número total seria de 1.926. Sendo 1,2 mil guardas nacionais; 230 voluntários e um substituto; além de 11 escravos libertos. “Tais dados representam 2,2% da população masculina da Província, incluindo os escravos”, afirma.

Porém, Brito ressalta que os dados de paranaenses que foram designados para a Guerra do Paraguai não são totalmente confiáveis e tendem a ser subestimados.

O relatório apresentado pelo governo da Província do Paraná em 1867, relativo ao ano de 1866, aponta que 1.513 paranaenses já teriam ido à guerra. “Se somarmos apenas os dois primeiros anos do conflito, a Província do Paraná havia enviado quase 80% do número total dos soldados computados pelo Ministério da Guerra. Ficando desta forma apenas 413 soldados para os quatros anos finais do confronto. Este número não é condizente com o contexto da guerra no período. Provavelmente, o número de recrutados foi bem superior ao indicado pelo relatório”, ressalta o pesquisador.

Voluntários fizeram a “ponte” no RJ e SC antes de ir ao front

No Paraná, o aviso do decreto de convocação dos voluntários foi dado durante a formatura de soldados da Guarda Nacional na Lapa. Nesse período, o presidente da Província era Pádua Fleury. Durante um discurso na Assembleia Provincial, em janeiro de 1865, ele declarou que “graças ao civismo dos briosos paranaenses já desembarcou na Corte a primeira companhia organizada nesta capital [Curitiba] com 75 praças e três oficiais”.

Essa primeira leva seguiu para a guerra depois de um curto estágio no Rio de Janeiro, onde se incorporou a outras forças voluntárias. A companhia paranaense foi incluída no 4.° Batalhão de Voluntários.

Já o primeiro corpo completo constituído no Paraná foi formalizado em maio de 1865. No mês seguinte, embarcaram para Santa Catarina, no vapor Dom Pedro II, para posteriormente seguirem para o front de batalha.

Além deste batalhão, seguiu uma segunda companhia isolada. David Carneiro escreve que esse grupo foi incorporado ao 25.° Batalhão de Voluntários da Pátria, também em território catarinense, e depois foram ao Paraguai. O grupo era formado por 17 oficiais, 250 praças e 22 mulheres. No início de julho, a tropa que totalizava 450 pessoas, somando com os de Santa Catarina, rumou para a guerra.

Recompensas da Guerra

Muitos paranaenses tiveram participação importante no conflito, mas não há um herói simbólico. Para o historiador Edilson Pereira Brito, quem se beneficiou durante o conflito foi a elite provincial, representada, sobretudo, pelos ervateiros do litoral e pelos proprietários rurais da região dos Campos Gerais. “Para essa elite a Guerra representou um momento de reforçar lealdades com o governo geral. Logo, tais homens que ocupavam postos importantes mobilizaram a sua clientela (empregados, agregadas e outros de forma geral) para a Guerra, obtendo certo sucesso e depois recebendo títulos do Imperador”, afirma.

O paranaense David dos Santos Pacheco, por exemplo, ofereceu cem reses de sua fazenda em Passo Fundo para manter as forças no Rio Grande do Sul, e organizou uma companhia de 85 praças de voluntários. Mais tarde, em 1880, recebeu o título de Barão dos Campos Gerais, sendo lembrado por sua atuação durante a Guerra do Paraguai.

Índios e escravos

Ilustração - Indígena paranaense
Indígena Paranaense
Ilustração - Escravo Paranaense
Escravo Paranaense

O historiador e pesquisador Edilson Pereira Brito revela que muitos indígenas do Paraná foram utilizados e recrutados para a batalha no Paraguai. Outros eram arregimentados para fazer a segurança das cidades sem policiamento. Um desses exemplos está em uma carta do diretor geral do aldeamento indígena para o governo provincial solicitando o pagamento de 23 indígenas, que se encontravam realizando o trabalho de guarnição na Comarca de Guarapuava em 1865.

Segundo um anúncio no jornal Dezenove de Dezembro, durante a guerra um escravo fugiu de seu proprietário para se alistar no Exército. “Isso mostra como a escravidão no Brasil era perversa, já que muitos escolhiam servir na guerra do que viver sob o jugo do cativeiro”, afirma Edilson Brito.

Imagem - Manchete do Jornal - Morre Solano López no campo de batalha!

O começo da Guerra do Paraguai foi marcado pelas ofensivas das tropas de Solano López no Mato Grosso, em dezembro de 1864, e em Corrientes, na Argentina, em abril de 1865. Em maio daquele ano, o Paraguai conseguiu atravessar Misiones e invadiu o Rio Grande do Sul.

De início, a invasão teve sucesso, mas depois foi contida pelas forças aliadas. “López foi ousado. Se não tivesse invadido a Argentina, a condução da guerra seria outra. No momento que ele invade, ele arrisca. Tinha lógica para combater as duas nações inimigas, mas as possibilidades [de dar certo] eram remotas”, diz o historiador Francisco Doratioto. Segundo o também historiador Herib Caballero, Solano acreditava que se o Brasil invadisse o Uruguai estaria colocando em risco o equilíbrio dos países no Rio da Prata. “Ele invade o Mato Grosso como resposta. A partir disso, as cartas estavam jogadas.”

Batalha do Riachuelo

Em junho, ocorreu a Batalha do Riachuelo, no Rio Paraná, o único grande confronto naval da guerra, no qual as tropas brasileiras venceram. Já em abril de 1866, as tropas aliadas invadiram o Paraguai e instalaram um quartel-general no Tuiuti, na confluência dos rios Paraná e Paraguai. Em 24 de maio, repeliram uma investida paraguaia e venceram a primeira grande batalha em terra.

Proposta rejeitada

Em setembro de 1866, Solano López chegou a propor concessões, inclusive territoriais, para terminar a guerra, desde que o Paraguai não fosse totalmente desmembrado ou ocupado em caráter permanente. A proposta foi rejeitada. No mesmo mês, em uma batalha em Curupaiti, os aliados foram massacrados. Mas em julho do ano seguinte, iniciou-se uma movimentação para cercar a fortaleza fluvial de Humaitá, que bloqueou o acesso ao Rio Paraguai e a Assunção. Mesmo assim, passou-se mais de um ano para que os aliados ocupassem Humaitá, em agosto de 1868. “A fortaleza resistiu por quase quatro anos. Ela caiu porque os soldados estavam passando fome”, afirma o pesquisador paraguaio Eduardo Nakayama. Assunção foi ocupada em 1º de janeiro de 1869.

Morte em Cerro Corá

Solano López tentou resistir por mais de um ano, mas acabou sendo morto em Cerro Corá, no nordeste do Paraguai, em 1º de março de 1870. Em 27 de julho, foi assinado um tratado de paz preliminar.